Um caminho novo a partir da orientação de pais

khalaó | Blog
Artigo publicado originalmente na Revista da Associação Brasileira de Daseinsanalyse- – ABD, no. 18, 2020.

RESUMO

Este artigo se propõe a apresentar e refletir sobre um caso em que o pedido inicial de um casal por atendimento psicológico para sua filha de nove anos foi acolhido e amadurecido ao longo de entrevistas, desdobrando-se num processo de Orientação de Pais. Pretende reconhecer as potencialidades terapêuticas da modalidade Orientação de Pais enquanto elaboração de experiência e ampliação de possibilidades de olhar e agir no mundo. Focalizando a experiência das dúvidas e dos dilemas com relação ao cuidado da criança, procura reconhecer sua legitimidade e importância e trazer a contribuição da perspectiva fenomenológica e daseinsanalytica enquanto suporte aos pais nesse cuidado.
Palavras-chave: Orientação de Pais. Daseinsanalyse. Criança. Desenvolvimento. Cuidado.

ABSTRACT

This article presents and reflects on a case in which the initial request of a couple for psychological care for their 9-year old daughter was taken up and matured over a series of interviews, turning into a process of Parent Orientation. It intends, therefore, to recognize the therapeutic potential of the Parent Orientation modality for elaboration of experience and expansion of the possibilities of seeing and acting in the world. Focusing on the doubts and dilemmas involved in raising a child, it aims to recognize the legitimacy and importance of this modality, and address the contribution of the phenomenological and daseinanalytical perspective on how to support parents in this journey.

 

 

O caso narrado aqui se desenrolou no âmbito do Projeto Alcance no ano de 2017. A procura inicial foi de um atendimento para J., uma menina de 9 anos.

Na triagem, os pais contaram que haviam descoberto, em fevereiro do ano anterior, que a filha sofrera abuso sexual por parte do marido da avó paterna, e, desde então, estavam em busca de cuidados para a filha. Quando chega ao projeto, J. já havia passado por duas psicólogas. A primeira a atendeu por dois meses, mas o processo foi interrompido, pois os pais não podiam pagar pelo atendimento. O segundo processo durou sete meses.

Os pais relataram que J. não gostava de ir às sessões de terapia. A menina havia passado também por um psiquiatra e iniciado tratamento com antidepressivo. Foi necessário mudar de profissional, pois ele havia se desligado do convênio médico do qual a família dispunha. J. passou a ser atendida num posto de saúde e a medicação foi interrompida.

No relato feito na triagem, chamou nossa atenção a peregrinação da família de serviço em serviço, passando por diversos profissionais que os acompanharam por pouco tempo. No relato dos pais, também não aparecia a necessidade ou demanda advinda da própria J. por um atendimento. Ao contrário, segundo o que contavam, já tendo passado por algumas experiências, J. não manifestava nenhuma mudança e, agora, dizia não estar interessada em falar mais do assunto… Encontrei-me com os pais para conhecê-los pessoalmente e fazer algumas entrevistas procurando compreender a demanda que traziam.

A mãe, M., se mostrava mais falante. No primeiro encontro, contou um resumo de toda a história, que depois fomos descortinando mais detalhadamente nos encontros seguintes. J. foi uma filha planejada e muito desejada, a única do casal. A mãe destacou a opção de deixar o trabalho para ficar cuidando, ela mesma, da filha. Quando J. completou cinco anos, a mãe voltou a fazer um curso em sua área de atuação para trabalhar.

Nesse período, o marido da avó paterna, considerado avô, adoeceu e se mudou com a esposa para a casa deles em São Paulo. A avó e o marido, até então, viviam no interior, mas consideraram que teriam mais fácil acesso aos tratamentos médicos necessários na capital, uma possível cirurgia e internação hospitalar.

O casal e a filha se reorganizaram para recebê-los. J. cedeu seu quarto para o avô e foi dormir com os pais, enquanto a avó dormia no sofá da sala. M. cuidava do sogro nos períodos em que ficou hospitalizado, enquanto a sogra cuidava de J. “Adotamos ele como avô. Fizemos uma troca”, M. disse.

Nesse período, segundo M., a menina começou a ficar mais rebelde. Os pais foram chamados pela escola e repreenderam a filha por ter tudo de que necessitava e, mesmo assim, estar se comportando mal. M. pensou, na ocasião, que aquilo estaria acontecendo por ter voltado a trabalhar ou porque, talvez, a filha não estivesse gostando da escola. A mãe comentou na entrevista que J. voltou a querer usar chupeta nesse período, que isso chamou sua atenção, mas foi algo que ficou incompreendido para ela.

Os avós continuaram morando com eles, muito embora já tivesse passado o período mais crítico do tratamento do avô. O pai de J. não ficou satisfeito com a presença da mãe e do marido em sua casa, porém, cedeu à insistência da mulher. Quando J. tinha por volta de sete anos, os avós retornaram para o interior. Os pais e a filha os visitavam frequentemente; lá a menina passava dias nos períodos de férias.

Em dezembro de 2015, a família foi para o interior visitar os avós e outros familiares que também moravam na mesma cidade. M. conta que, certo dia, se assustou ao ver a filha jogando videogame com um primo num quarto escuro e de portas fechadas. Ela, então, chamou a filha para uma conversa no banheiro, algo comum entre elas, e explicou-lhe que não poderia fazer aquilo, pois já era uma moça, não podia ficar fechada com ninguém num quarto escuro e não podia deixar ninguém tocá-la… e foi lhe mostrando como não deveria se deixar tocar.

Após essa conversa, J. continuou passando férias na casa dos avós. Os pais voltaram para São Paulo durante a semana e retornaram para o interior no fim de semana seguinte. Passada uma semana após a conversa no banheiro, a filha a chamou e disse que o avô tinha feito aquilo que a mãe tinha dito que não podia fazer. Atônita e perdida, M. disse de imediato à filha que também passara pela mesma experiência, mas que com J. seria diferente, pois não seria desacreditada como a mãe o foi quando criança. Daí em diante, não sabia o que fazer. Contou ao marido. O casal iniciou sua busca por orientação jurídica e atendimentos de saúde, numa peregrinação enorme…

Quando os pais chegaram ao Projeto Alcance havia transcorrido mais de um ano da denúncia e do abalo que vinham sofrendo. Estavam cansados de não verem nenhuma providência ser tomada pelo sistema judiciário e desgastados, também, como casal. Não apresentavam claramente nenhuma queixa, demanda ou sofrimento da filha para o início de um processo terapêutico com ela naquele momento, por mais que trouxessem a narrativa de abuso. Ao contrário, nas primeiras entrevistas, havíamos falado sobre como J. era uma menina extremamente carinhosa, alegre, cheia de energia: ia à escola, tinha boas notas, era querida pelas outras crianças e professores, um pouco briguenta também, determinada a conseguir o que quisesse e muito apegada aos pais.

O casal, por sua vez, manifestava a preocupação de que a filha tivesse sequelas no futuro em relação ao ocorrido com o avô, em sua autoestima, em relação à sua sexualidade, no relacionamento com os familiares do lado paterno. A mãe contou que a filha tinha apresentado um período de “compulsão alimentar” antes de fazer a denúncia, porém, a questão havia se resolvido. Por um lado, era vago o que os pais traziam em relação ao sofrimento de J.; por outro, a mãe seguia em intenso envolvimento com o ocorrido, voltada mais e mais para as próprias angústias.

Propus a eles que tivéssemos mais alguns encontros para conversarmos sobre eles próprios e cuidarmos do impacto daquela situação de violência, também pensando no cuidado que, como pais, poderiam ter com a filha. Eles aceitaram a proposta e passaram a vir para encontros que chamamos de orientação de pais. Refletimos que o atendimento deles enquanto pais poderia ser um caminho mais coerente com as demandas manifestadas naquela ocasião e um cuidado da família como um todo. Até porque a filha havia sido categórica em dizer à juíza responsável pelo seu caso que não desejava fazer psicoterapia.

A mãe sofreu diversas internações nesse processo, a primeira há cerca de um mês depois da denúncia do avô. Ao relatar a história que vinham vivendo, parecia nitidamente a mais afetada pelo ocorrido, mais do que a própria filha naquele momento. Ela própria tinha uma vivência de abuso sexual, não reconhecida em sua infância, que veio à tona com força total. Como a filha, não queria falar muito a respeito. Estava muito difícil digerir aquela carga de sentimentos. No decorrer dos meses, ocorreram crises de agitação e revolta, que se alternaram com períodos depressivos, dificuldades para realizar as atividades do seu dia a dia. Um caminhar cambaleante entre o enfrentar as dores sentidas, imaginadas e lembradas em alguns momentos e, em outros, anestesiá-las tanto quanto possível.

Nas primeiras entrevistas de Orientação de Pais, o marido quase não falava, pois a mulher trazia tal perturbação com tudo o que relatava que ele, já não sendo muito de falar, conforme me explicaram, dizia apenas: “Eu não imaginava né… Quem poderia imaginar? Agora é aguardar que a justiça seja feita…”. E não falava de seus sentimentos.

A mulher, que era muito ligada à família do marido, queria que os familiares se posicionassem, que ficassem do lado de sua filha; mas isso não ocorria. As pessoas não falavam sobre o assunto… O marido já não tinha um contato muito próximo com a própria mãe nem com os irmãos, e essa distância se acentuou ainda mais. Aparentemente, nada ia mudar. Ele esperava a justiça ser feita, pela sentença do juiz. Ninguém parecia dar importância afetiva ao ocorrido a não ser a mulher. Em nossos encontros, o casal elaborava que, talvez, os familiares interpretassem tudo aquilo como invenção da menina, até porque o avô havia feito declarações contraditórias em seus depoimentos à justiça, dando a entender que ela teria inventado coisas. A mulher viveu esses meses bastante transtornada com todos, inclusive com seu marido, que chegou a dizer, em sessão, que o que havia ocorrido com a filha não havia sido tão grave e não chegava a ser um abuso, pois poderia ter sido muito pior.

O processo de orientação durou cerca de três meses. Nesses encontros, falávamos a respeito dessas questões considerando aspectos do crescimento e da afetividade, as marcas que aquele acontecimento poderia deixar e como eles, pais, poderiam estar atentos para oferecer ajuda à medida que a filha demandasse e da forma como o fizesse. Os pais queriam guardar a filha numa redoma de vidro, mas sabiam que este também não seria um caminho saudável. Falamos, no decorrer dos encontros, sobre como poderiam protegê-la sem privá-la do mundo.

Eles [os pais] assumem na educação a responsabilidade, ao mesmo tempo, pela vida e desenvolvimento da criança e pela continuidade do mundo. […] Na medida em que a criança não tem familiaridade com o mundo, deve-se introduzi-la aos poucos e ele; na medida em que ela é nova, deve-se cuidar para que essa coisa nova chegue à fruição em relação ao mundo como ele é. (ARENDT, 2005, p. 237-239)

A mãe estava afastada do seu trabalho desde sua primeira internação. O pai cumpria profissionalmente uma carga de 6 horas diárias. Em seu dia a dia intercalavam, ciclicamente, sequências de dias em que passavam bastante tempo juntos, cozinhavam os pratos preferidos da filha, iam ao shopping, assistiam à televisão, tentando “tocar a vida”, com os períodos em que a mãe recaía em grave depressão, não conseguia sair da cama, não tomava banho, ingeria doses excessivas de medicamentos para “apagar” e acabava por ser internada.

Percebi, no modo como o casal se colocava nas sessões, sempre muito mobilizados com os assuntos de que tratávamos, o quanto o trabalho de orientação vinha se mostrando um caminho de cuidado com eles, no desvelamento do jeito como cada um vivia o enredo que compartilhavam, e, sobretudo, um caminho de cuidado com M., que estava mais “à flor da pele”. Na abertura para encontrar junto deles as melhores possibilidades para a vida de M., do marido e da família, no decorrer dos encontros, fomos descobrindo e acolhendo outras possibilidades da relação terapêutica. Com as ausências constantes do marido às sessões de orientação de pais, após três meses do processo, foi proposta a continuidade do cuidado por meio de encontros individuais com M.. Ambos acolheram positivamente a proposta, e assim seguimos o caminho terapêutico com M. em psicoterapia individual.

Pode-se dizer que a conclusão do processo de orientação foi a de que M., em busca de ajuda para a filha, em face da situação de abuso sexual tão próxima de si mesma, se desvelou desamparada e atônita, atordoada, tonta. Em seu olhar, se via o quanto estava perdida. Seu primeiro movimento foi tentar exercer seu papel de mãe não deixando que o ocorrido com a filha passasse em brancas nuvens, como fora consigo mesma, inclusive procurando um caminho para oferecer-lhe atendimento psicológico. Como Pompeia (2000) ilustra na alusão à ponte, todos nós realizamos uma passagem de uma experiência à outra, de uma margem à outra de um rio. É necessário que as experiências sejam reconhecidas e narradas, que não “passem”, simplesmente, de forma apressada.

Iniciado o processo de orientação, a necessidade de dar visibilidade ao acontecimento de M. de certa forma foi atendida e trouxe alguma serenidade e suporte aos pais. Os encontros de orientação possibilitaram uma travessia para o reconhecimento do lugar único em que se encontravam M. e R. – cada um na sua experiência singular. E J., por sua vez, também em outra perspectiva. Conforme Cytrynowicz (2018, p. 214), a orientação se abre como espaço para esclarecimento das questões dos responsáveis pela criança, tendo como objetivo encontrar as melhores condutas possíveis em seu caso. No relato aqui apresentado, a partir da procura inicial abriu-se a possibilidade de falar sobre as preocupações dos pais e das próprias experiências vividas junto com os familiares envolvidos na situação, ampliando possibilidades de olhar e agir.

Transcorridos aqueles meses de orientação, por um lado, as dúvidas mais prementes sobre como lidar com J. haviam sido esclarecidas, e, por outro, haviam apontado para um caminho de compreensão novo dos pais com relação às próprias buscas.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

ARENDT, H. A crise na educação. Entre o passado e o futuro. São Paulo: Perspectiva, 2005.

CYTRYNOWICZ, M. B. Criança e infância: fundamentos existenciais, 2018.

POMPEIA, J. A. Desfecho: encerramento de um processo. Revista Daseinsanalyse. São Paulo: ABD, n. 9, 2000.

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *